Túmulos

abril 3, 2009 § 5 Comentários

“Vamos aos poucos nos esquecendo deles, dos nossos mortos, enquanto afundam na terra ou são queimados, ou mesmo atirados com pesos ao mar. Somem da nossa vista e transferimos às ogivas de concreto, aos mármores de suas lápides, aos emblemas de pedra ou dispostos na grama – crucifixos de madeira, hexágonos orientais, olhos de peixe, asas de falcão, dedos em figa – o que seria puro desespero. Construímos marcos e monumentos, pequenos oratórios à beira das estradas, cidadelas em miniatura para tentar esquecê-los. Fico pensando se cada casebre não será no fundo uma lápide antecipada, e se jamais um único tijolo foi assentadocom propósito diferente deste – se tudo o que pareceria uso prático, abrigo contra as intempéries, interioridade aconchegante, não seria já a pedra da morte futura, que rugia de perto. Túmulos pavimentam o esquecimento, permitindo à vida que faça o que tem de fazer, seguir sem os mortos (o que nos incluirá a todos).”

 

    [RAMOS, Nuno[

fantasmas que mudam de dono

março 30, 2009 § Deixe um comentário

“eu a traí pois só queria desejá-la, ter a chance de achá-la atraente, fisicamente atraente em cada minúcia natural ou industrial, queria dar uma alma e não um nome, um caráter a cada detalhe mas sem uni-los num corpo completo e funcional, sem achar equivalência entre o sopro de minha boca e o nó que carrego no peito, no topo do meu estômago, essa vontade de cantar e vomitar ao mesmo tempo, queria achar os pedaços do que comi (pelos olhos, não pela boca, minha refeição se dá sempre pelos olhos) preservados no sopro de palavras que escapa de mim a cada instante, queria gostar de alguma coisa neutra, como um pão sem gosto envolvendo a maravilha minuciosa que perco minuciosamente, uma coisa neutra que torna contínua a desastrada euforia, deprimindo-a num batimento mais constante e previsível, mas que para mim já bastava, entenda, bastava se me fosse oferecida, mas como acreditar se eu já sabia que antes de anoitecer eu seria expulso e o pão sem gosto para mim seria amargo, seria doce, mas sempre excessivamente saboroso?”

   

     [RAMOS, Nuno[

infância, tv

março 24, 2009 § 2 Comentários

Para que sonharia? Para que lembraria meus sonhos? De que valem estas fatias de imagem, este eco de vozes, estes mortos vivinhos da silva? Quero o dia imediato, sua luz sobre meus ombros, pesada como uma capa de chumbo transparente, quero a voz de quem fala realmente, fala comigo agora, palavras compreensíveis e sem mistério, tais como – o leite está quente. Nada mais.

 

      [RAMOS, Nuno[

mas é tão, tão natural

março 19, 2009 § 1 comentário

Mas não há como evitá-lo: com a idade cedemos ao costume, precisamos disso, e o motor circular de um dia extenso nos traz de volta ao mesmo jardim. Nele, todas as flores fomo nós que plantamos, todos os bancos têm o nosso nome e a sombra da catedral nosso próprio formato. Não passamos então de tristes autores de nossas vidas, sobre a qual exercemos controle minuncioso e despótico – herdeiros de dias antigos, proprietários cuja escritura foi lavrada com nosso medo e tédio. Em certa medida, vamos nos parecendo cada vez mais com a matéria inerte, e não com corpos elásticos feitos para o banho e para a tarde vermelha. Nosso pulmão vai se mineralizando, temos a constância de eventos naturais (saímos de casa às seis horas, somos alérgicos a chocolate, ouvimos tangos, apenas tangos), e uma ferida azul escura vai se cravando em nossa canela, nossa espinha verga, nossos olhos perdem o seu brilho e transparência, como leite quando talha. Então transformamo-nos num sistema circular de tiques, opiniões, fixações coletivas, cacoetes socializados, imbecilidades consentidas.

 

      [RAMOS, Nuno[

incendiário sem fósforo

março 13, 2009 § 1 comentário

e se perdi o meu pequeno planeta no bolso de uma calça que mandei lavar foi por causa desse apego a detalhes

                                          [RAMOS, Nuno[

pecado original

março 7, 2009 § Deixe um comentário

“Não há pele que me prenda, nem voz que me convenha – não caibo em meus pés, nem nos passos. Se olharem meus olhos verão que nunca dormi, se examinarem minha boca verão que nunca bebi, em meus intestinos que nunca comi, tudo o que fiz foi querer, querer como um maluco – em minhas narinas que nunca traguei, em minha carícia, tudo o que fiz foi querer. Querer como um maluco.” 

                        [RAMOS, Nuno[

mais que uma lição

março 7, 2009 § Deixe um comentário

bonecas-russas“Feitos à semelhança de algum protótipo, à própria semelhança estamos presos, como bois à mó (à mó dentro da mó, boneca russa de pedra). Nada em nós ventila, só o vento dentro do vento nos alcança, sem notícia nem claridade nem viagem nem sal marinho. Concateando à relojoaria noturna, circular, das bonecas russas das galáxias, girando dentro de si mesmas em velocidades espantosas, olho enfatuado por um olho que não é meu, já tomado pelo que viu e vê ainda. Um olho que tem a luz colada, em dobras de repetição e de contagem. Cada vez que pisco, encontro o que já via antes. Como é possível isto?”

[RAMOS, Nuno[

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