Perfil

novembro 8, 2009 § 1 comentário

Naqueles tempos,

Ele era tão inconstante de espírito e de coração,

Que seus olhos eram sempre da cor da gravata

Que estava usando na ocasião

 

[QUINTANA, Mário[

O nome e as coisas

setembro 7, 2009 § Deixe um comentário

Para que estragar a simples existência das coisas com nomes arbitrários?

Um gato não sabe que se chama gato

e Deus não sabe que se chama Deus

(“Eu sou quem sou” — diz Ele no livro do Gênesis)

Eu sonho

É com uma linguagem composta unicamente de adjetivos

Como deve ser a linguagem das plantas e dos animais!

Só de adjetivos, sem explicação alguma,

Mas com muito mais poesia…

[QUINTANA, Mário[

para ler num canto [ou motivos de um dia frio]

setembro 5, 2009 § Deixe um comentário

Eu jogo pérolas aos poucos ao mar
Eu quero ver as ondas se quebrar
Eu jogo pérolas pro céu
Pra quem; pra você; pra ninguém
Que vão cair na lama de onde vêm

Eu jogo ao fogo todo o meu sonhar
E o cego amor entrego ao deus dará
Solto nas notas da canção
Aberta a qualquer coração
Eu jogo pérolas ao céu e ao chão

Grão de areia
O sol se desfaz na concha escura

Lua cheia
O tempo se apura
Maré cheia
A doença traz a dor e a cura
E semeia
Grãos de resplendor
Na loucura

Eu jogo ao fogo todo o meu sonhar
Eu quero ver o fogo se queimar
E até no breu reconhecer
A flor que o acaso nos dá
Eu jogo pérolas ao deus dará


Pérolas aos poucos – [WISNIK, Zé Miguel e NEVES, Paulo[

— —

ORQUESTRA

A coisa mais solitária do mundo é um solo de flauta

Em compensação a tua cabeça está cheia de borboletas estrídulas

Mas eu deixo tombar das minhas mãos o pandeiro de guizos

E, na verdade, o que eu tenho é uma alma de violoncelo

—- grave, profunda, triste…

[QUINTANA, Mário[ in Velórios sem defunto

o espelho

março 16, 2009 § 2 Comentários

E como eu passasse por diante do espelho
não vi meu quarto com as suas estantes
nem este meu rosto
onde escorre o tempo.

Vi primeiro uns retratos na parede:
janelas onde olham avós hirsutos
e as vovozinhas de saia-balão
Como pára-quedistas às avessas que subissem do 
                                      fundo do tempo.

O relógio marcava a hora
mas não dizia o dia. O Tempo,
desconcertado,
estava parado.

Sim, estava parado
Em cima do telhado…
Como um catavento que perdeu as asas!

 

      [QUINTANA, Mario[

Onde estou?

Você está navegando em publicações marcadas com Mário Quintana em Manter em cárceres privados..