Mulher

outubro 31, 2008 § 1 comentário

 

 – Ele vivia dizendo que ela era um amor de mulher: de uma meiguice, uma delicadeza, uma docilidade, sei lá… Tudo que ele falava ela respondia de uma maneira tão suave, com um sorriso tão delicado, não dizia sim nem não… Se ele perguntava, por exemplo: ‘Quer ir ao cinema hoje, meu bem? – ela dava um suspiro e fazia um ar vago, erguia os ombros como quem diz: “Você é quem sabe…” Casou-se com ela e só então descobriu que era surda feito uma porta.

 

                      [SABINO, Fernando[

Meninos

outubro 7, 2008 § 1 comentário

 

– PAPAI, quem é aquela mulher que estava conversando com você? – quis saber o menino de sete anos.

– É uma amiga de seu pai. Por quê? 

– Esquisita…

– Esquisita como, meu filho?

– Não sei. Diferente. Tudo nela é diferente. De longe parece alta, mas quando você chegou perto eu vi que não é tanto. Que é que ela faz?

– Ela é artista: pinta, desenha…

– Bem que eu vi que ela faz dessas coisas. E quem é aquela menina que estava com ela?

– É filha dela.

– Coitada daquela menina.

– Por quê? Você não achou ela bonita?

– Ela quem? A menina ou a mãe dela?

– Bem… A menina.

– A menina eu não reparei. Agora: a mãe dela é bonita, mas sabe de uma coisa? Eu é que não queria ter uma mãe assim.

– Assim como?

– Diferente da mãe da gente. Que faz essas coisas: que pinta, que desenha, que escreve. Essas coisas.

– Que escreve também? Pois seu pai…

– Pai é diferente. Mãe é que fica esquisito.

– Mas esquisito por quê?

– Ora, papai, você também não entende. Ela fica agitada.

– Pois essa minha amiga é tão calma. Você não achou?

– Não achei não. Ela não parece, mas é muito agitada. Fiquei reparando quando você me deixou aqui esperando e foi falar com ela. De longe ela é que a gente vê. De perto a gente só vê o corpo.

– E de longe?

– De longe é que a gente vê por dentro. Por fora não parece não, mas por dentro aquela sua amiga é muito agitada. Não sei… Tem dentro dela uma coisa que pula.

– Uma coisa que pula…

– É! Uma coisa que não deixa ela ficar quieta. Eu, por exemplo, quando fico assim, saio pulando mesmo e logo passa. Ela não: ela não pode sair pulando. Deve ser muito triste, não é, papai?

 

 

 

 

 

 

 

Fernando Sabino

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