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novembro 8, 2009 § 1 comentário

Naqueles tempos,

Ele era tão inconstante de espírito e de coração,

Que seus olhos eram sempre da cor da gravata

Que estava usando na ocasião

 

[QUINTANA, Mário[

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uma boa semana

junho 17, 2009 § 2 Comentários

ninguém por este lado de cá, deste lado cansado, mas atento, pode acreditar que sim, que por preguiça mesmo as coisas não andam do lugar. uma frase não dita muda completamente o sentido, o caminho, a intenção. é impossível um mundo dividido por tantos muros assim, pra se ficar em cima. discussão de surdomudos, já estamos roucos, moribundos, transformando o que – não muito tempo atrás – era o maior potencial de tudo que havia na gente.

pelo menos por aqui, comigo, pelo meio disso tudo que se joga fora, agora.

e é como tentar nadar contra o rumo do rio, só se diz adeus, desiste. não é nenhum fim que se está próximo, nem nunca veio; abandonamos as cartas no meio do jogo, jogamos sozinhos, um ao lado do outro, mas nunca se cruzou um olhar. é tanto muro que não se sabe se existe mesmo um horizonte, se alguém acompanha também, um dia. são peças que não se encaixam, verdades que não se confirmam; e antes que pudéssemos ver, nos achamos nús pisando em pedras e ovos, ou não pisando em nada – não sei o que é pior, de fato -; pedras ao menos deixam suas marcas, o sangue que fica de memória traz aquilo de sincero, aquilo da dor que pelo menos acompanha. o grito que precede a dor já faz de tudo real, de tudo potência, e a gente se mexe.

a dor que vem sem o sangue, aquela que leva embora a memória, que deixa no ar a vontade de pelo menos uma frase de alguém – de qualquer pessoa, qualquer – dizendo que é uma tolice, que nunca houve o quê, que não há como sepultar o fantasma daquilo que nunca existiu é a que mais mata sem ter motivo. ou por todos os motivos do mundo. é dessa que estou falando. se ao menos o silêncio não rasgasse tanto, talvez o jogo tivesse continuado, tempos atrás, como sempre. mas acho que a graça está em reciclar todas as peças; mas só as peças, pois os jogadores não sabem sair do lugar.

/como sempre, todos temos nossas boas semanas. fica um beijo. 🙂

com açúcar, com afeto

junho 8, 2009 § 2 Comentários

 

sua vida:

– chega a morte bem mais pra mim do que pra você 

nosso encontro:

– única, só sua distância.

meu prazer:

– saber que é sozinha. nunca com alguém, mesmo em multidões.

 

O primeiro me chegou como quem vem do florista
Trouxe um bicho de pelúcia, trouxe um broche de ametista
Me contou suas viagens e as vantagens que ele tinha
Me mostrou o seu relógio, me chamava de rainha
Me encontrou tão desarmada que tocou meu coração
Mas não me negava nada, e, assustada, eu disse não

O segundo me chegou como quem chega do bar
Trouxe um litro de aguardente tão amarga de tragar
Indagou o meu passado e cheirou minha comida
Vasculhou minha gaveta me chamava de perdida
Me encontrou tão desarmada que arranhou meu coração
Mas não me entregava nada, e, assustada, eu disse não

O terceiro me chegou como quem chega do nada
Ele não me trouxe nada também nada perguntou
Mal sei como ele se chama mas entendo o que ele quer
Se deitou na minha cama e me chama de mulher
Foi chegando sorrateiro e antes que eu dissesse não
Se instalou feito posseiro, dentro do meu coração

                                                                               [BUARQUE, Chico[ – Teresinha

 

/obsessivamente doentio; tripé da gente, do mundo, de todo mundo

azul [sorriso que eu nunca mais vi]

junho 5, 2009 § 3 Comentários

talvez porque eu tenha tomado umas grandes doses de uísque há alguns minutos, talvez porque nada faça mais falta que o sorriso.

pode ser que o som de toda saudade que há no mundo faça mais barulho que o caminhão de lixo, que esse whisky que tomo seja o mais amargo de todos os outros – esse que sempre se compara àquelas jurupingas e cervejas, mundos e dragões, à tudo aquilo que não veio -, pode ser que eu esteja errado, enfim. talvez todo o mundo que a gente constrói por aí, alguma vez na vida vira mentira, se torna finalmente algo mais que fábula, algo de cadeia, de tortura, de calabouço; algo que possa sim criar raízes e colocar a gente no chão de vez em quando. enquanto espasmo palavras por aí, a flecha não encontra seu alvo, alvo que sempre se esquivou, que nunca oficializou-se como alvo, que nunca permitiu nada além de um toque breve. 

enquanto o mar aberto perde sua beira, finjo que nada acontece. as pedras que me fizeram agora já são areia, a história que me acompanha vira um amontoado de vidro e rancor, as promessas que nunca fiz se escondem debaixo da minha saia e o que sempre persegui se volta pro passado. não é meio dia e nem ficamos mais jovens. tirar os muros das casas deixa a gente acreditar que uma hora a gente encontra alguma coisa do outro lado, esperando, à mercê de tudo, nosso. 

troca-se cores.

 

/mas por favor, uma igual à que eu tinha antes, moço, do mesmo jeito, quase que um genérico. gosto de achar minha antiga cor em tudo. 🙂

pelo silêncio que ganho de presente

maio 20, 2009 § 1 comentário

does it?

/sonhos não crescem no deserto.

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