rasgado, em pedaços [ou carta a mim mesmo]

novembro 6, 2009 § Deixe um comentário

são paulo, 06 de novembro de 2009 [19:37]

 

 

eu queria lhe escrever uma carta, você que mora longe, pra gente que não se fala, só se passa; passagem, sempre, entendendo que nossa natureza é nosso tesouro e que leva também a ruína — nossas Sirenes; e como Ulisses queremos nosso próprio mastro amarrado sobre nós. eu poderia também estar de luto, como naquelas canções barrocas, pois é, enfim, poderia lhe falar tantas coisas, todas clichês, todas já mastigadas e cansativas pra você. não penso também com aquela vontade, eu só queria você perto em alguns instantes, do jeito que somos hoje. as coisas sempre tem um “nós”, sempre necessitam de alguma coisa que prove que as palavras não são mais coisas egoístas e inflexíveis, as pessoas precisam saber que tudo que você diz por aí é sempre pra alguém, nunca pra você mesmo. talvez seja por isso que essa carta faça sentido. há tempos deixamos de conversar e ainda assim andamos juntos. mas andar junto não significa olhar pro mesmo lado, apenas caminhos convenientes para vetores opostos. deve achar agora com certeza que sou um maluco, um maníaco, um “à-toa” por ocupar minha cabeça com besteiras desse tipo, mas se você ao menos visse que a gente que não sabe mais se comunicar, entenderia minha preocupação. o preço da nossa independência é um orgulho bobo e nossa insignificância se confirma em não sabermos ser sozinhos. não nos desprendemos do drama, a sua vida nem parece mais a minha, e graças à deus, acho que nunca foram mesmo. cada suspiro perde o ar assim como minhas palavras já perderam seu sentido no começo desta carta.

 

 

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